segunda-feira, 12 de março de 2012

Platonississimamente

Em 1999 - com 6 anos de quase nenhuma experiência como gente- perdi um dente , aprendi a ler sem gaguejar fui apresentada aos " caras que tocam Ana Julia" . Gastei uma fortuna de milhares de 50 centavos com fichas de Karaokê no restaurante/pizzaria em que jantávamos aos domingos . Sem mais dente nenhum a perder , construindo caráter musical , fui tentada a mergulhar naquele som e em todas aquelas coisas lindas e agridoces . Quando a vida me fez adquirir caráter sufuciente para entendê-las , tudo se tornou mais fácil . Vozes soprando no meu ouvido coisas sobre a vida , amor , dor e felicidade como se minha alma se descosturasse do meu corpo e sax , guitarra , baixo , flauta transversal por fim me transformassem em Hermana . Como se tivese nascido com sangue Hermano correndo em minhas veias . Por fim , Los Hermanos.
Essa vida de nostalgia do que não tive e o querer ter tido 18 anos , Jornalismo na PUC e ensaios de garagem Los Hermanos em 1994 - Quando tinha 1 ano de quase nenhuma experiência como gente- não passa de uma ridícula paixonite idiota platonissíssima secreta pelo Amarante . Me julguem - E guardem segredo .

sexta-feira, 9 de março de 2012

Não é macumba , é amor

Dor de ressaca e tremedeira pedinte de veneno matinal .Doses cavalares se aplicam sozinhas .Você vem , perfura o buraco moldado por sua dor no meu peito , aumenta o buraco da parte reservada pra você na minha mente e se acomoda . Só me resta a genial hipótese de que você é a espécie desconhecida de droga que toma , fuma , mastiga e cospe quem ingere .
Talvez eu ame sua dor - a única parte sua que me pertence- , talvez eu queira viver a dor , já que , por motivos que não cabem à um reles mortal questionar , as feridas se esqueceram de cicatrizar e os buracos se esqueceram de fechar por apreço a mim e eu a eles .Talvez o masoquismo tenha a ver com o fato de não existirem estruturas tamanho G e a ditadura da magreza tenha me feito de refém sem que eu pudesse me dar conta . Mais forte que qualquer resto de força .Mais forte que a força de qualquer coisa -concreta ou abstrata-

quinta-feira, 8 de março de 2012

Fadiga secular de meio-dia

Era meio-dia, você abriu a porta sem pedir licença e me acordou . E ainda que eu quisesse dormir até esquecer quem eu era e só acordar no século XXX , o que te disse ? - Bom Dia - E sorri - E ouvi tudo que me dissera com atenção . Dei-lhe conselhos -daqueles que soam melhor sendo dados que aplicados - e deixei de tomar café porque dissera ser hora de almoço .
N'outro dia , quis me afastar de todo e qualquer comportamento humano . Pus minhas tralhas na cadeira ao lado . Você as tirou e sentou-se lá . Não queria ter dito nada , mas você disse 'Oi' . E nós conversamos sobre você , sua vida e seus problemas .
Ontem acordei ainda no século XXI e fui até sua casa . Era meio-dia e bati . Bati . Bati . Me abriu a porta com xícara de café na mão direita e remela nos olhos . Resmungou . Perguntou o que eu queria e esqueceu de parar de falar de si mesmo para me ouvir . Pediu ajuda com a roupa suja e carona pro trabalho . Estava atrasado . E nao me aborreci .
Fadiga secular , sabe ? Portanto , não se chateie caso eu não lhe dê Bom dia enquanto almoço na hora da janta . Há muito que o dom de ser apenas a parte do eu que lhe permito conhecer não me pertence .Minhas bochechas doem e já não sustentam risos falsos .
Me dê um século , Ok ? Só estou descarregando dores e maus humores que não fui capaz de sustentar durante a vida toda . E não sei se consigo não ser egoísta o bastante para liberá-los a qualquer um que não seja eu .

Estação

Digamos que a culpa pela derrota na queda de braço com o que parecia ser meu antigo eu - De movimentos friamente calculados e coração nunca disposto a entrar em acordo com quaisquer sentimentos com consideráveis chances de ferí-lo uma vez mais- seja inteiramente da parte imbecil de um outro eu , descoberto há pouco . O que poderia estar totalmente ligado ao fato de meus agora frágeis braços não serem capazes de manter a porta fechada.
Este lugar tem se tornado mais frequentado que uma estação de trem .Tão parecido com uma estação de trem quanto uma estação de trem. Longos espaços entre chegadas e partidas sem piedade com quem mora em um dos quaiquer bancos e vive da espera falsamente paciente -Para que a saudade não se dê conta de sua existência e seja obrigada a fingir não existir , nem pestanejar .
Há bilhetes por toda parte , a qualquer destino e preço . Entretanto , quem ocupa todos os espaços e acentos desta estação não pretende embarcar . Não agora . Enquanto isso , o eu imbecil permanece na Condicional . Sem direito de comprá-los , nem de reclamar sobre sua estadia solitária quando a noite cai , todos os espaços estão vazios e a porta continua aberta . Até que o dono de todos os bilhetes se canse de estar em todos os lugares do mundo do lado de fora da porta e resolva ocupar ,permanentemente, todos os espaços do lado de dentro . Onde já não existe destino algum . Só um bando de bancos vazios , um trem banido e o que pode se chamar de "Eu te esperando como cada dia de sempre "

terça-feira, 6 de março de 2012

O barco

Tinha visto o barco dançar há 5 minutos e , agora , nunca o vi tão quieto . Adormecendo , diria . Nada de ondulações brutas . Humildes pedaços envelhecidos de madeira nobre sob um tapete azul , apenas .
Havia muito não via os pingos salgados caindo dos olhos do tapete azul de lá de cima . Mas desde que todos os passarinhos verdes voaram para o Sul , as ondas , outra vez violentas , são perfuradas ruidosamente pelo choro do tapete -agora , cinza .
Protegendo-se , cá dentro , está o homem cansado de remar . Encolhendo enquanto cada pingo trazia consigo pedaços de lembranças de quem ele era . Fugira do tapete de todo mundo . Conseguira esquecer de boa parte do sofrimento distraindo-se com a beleza do nada . Guardara nos braços a bagagem que lhe convinha com o resto das lembranças que daria a vida por não perder .
Fora da bagagem , de barba maior que os cabelos, roupas encardidas e cheiro forte de peixe . Dentro , pedaços de papel retangulares parecidos com fotografias onde , aparentemente , retratavam-no. Rosto jovial , olhos de sonhador - Os quais ainda eram nítidos ainda que tivesse se esquecido de notá-los na falta de nitidez das velhas fotos - Ao fundo , linda casa , portas abertas , lindo dia . ar de felicidade . Nos braços , o mesmo violão , estranhamente intacto , apesar do tempo indefinidamente longo que passara .
O homem escolhera não se lembrar mais do motivo pelo qual preferia o nada , apenas do que o sustentava enquanto vivia no tudo do tapete de todo mundo . Não importava mais que a única fotografia restante se desfizesse ainda mais , pois tratara de projetá-la em todos os minutos de sua incondicional opcional .
Fizera questão de lembrar de esquecer do que o faria desistir do nada do mesmo modo em que desistiu de tudo por algo que esquecera após viver de tentar esquecer .
A cada dia um acorde substituia o lugar que sua mente reservara para um pedaço da lembrança da fotografia , que também foi obrigada a ser esquecida .Assim como sua antiga vida , que , aos poucos ficava mais distante do que o fazia querer abandonar tudo -ou nada- de novo .
Já não se lembrava mais dos nomes dos dias da semana , nem dos meses . Até que se perdeu no tempo junto ao temporal de ontem .
O que um dia poderia ter sido chamada de fotografia , que nunca mais seria lembrada caso não resolvesse aparecer por conta prória , saíra de dentro de onde vinha o som . Enquanto as ondas sacudiam o barco e as águas invadiam cada espaço seco , sua bagagem e todas as coisas sem vida boiavam , o homem apenas se lamentava por perder o violão - a lembrança restante e concreta .
Agia igualmente a um dia de tempestade comum em uma tempestade incomum . Entre as cordas da lembrança concreta , um pedaço molhado de papel retangular fez-se , também , concreto ao retratar perfeita e unicamente ao homem seus olhos de sonhador . Reconheceu-se neles . Ao lado , estavam os olhos de seu coração , a dona de sua alma , o motivo de todos seus dias alegres .
Lamentou por ter se esquecido de saber nadar até perder os braços -quizá a vida -por se ver novamente dentro dos olhos da mulher .
Lamentou por ter esquecido o Pai Nosso e pediu ao que restava da lembrança do Pai que devolvesse todas as lembranças .
Lamentou por ter se lembrado de ter aprendido a nadar quando o tapete azul inundava violentamente suas vias respiratórias e tomava suas forças .
Com o violão nos braços , foi tomado pelas lembranças e afogou-se nelas .