terça-feira, 6 de março de 2012

O barco

Tinha visto o barco dançar há 5 minutos e , agora , nunca o vi tão quieto . Adormecendo , diria . Nada de ondulações brutas . Humildes pedaços envelhecidos de madeira nobre sob um tapete azul , apenas .
Havia muito não via os pingos salgados caindo dos olhos do tapete azul de lá de cima . Mas desde que todos os passarinhos verdes voaram para o Sul , as ondas , outra vez violentas , são perfuradas ruidosamente pelo choro do tapete -agora , cinza .
Protegendo-se , cá dentro , está o homem cansado de remar . Encolhendo enquanto cada pingo trazia consigo pedaços de lembranças de quem ele era . Fugira do tapete de todo mundo . Conseguira esquecer de boa parte do sofrimento distraindo-se com a beleza do nada . Guardara nos braços a bagagem que lhe convinha com o resto das lembranças que daria a vida por não perder .
Fora da bagagem , de barba maior que os cabelos, roupas encardidas e cheiro forte de peixe . Dentro , pedaços de papel retangulares parecidos com fotografias onde , aparentemente , retratavam-no. Rosto jovial , olhos de sonhador - Os quais ainda eram nítidos ainda que tivesse se esquecido de notá-los na falta de nitidez das velhas fotos - Ao fundo , linda casa , portas abertas , lindo dia . ar de felicidade . Nos braços , o mesmo violão , estranhamente intacto , apesar do tempo indefinidamente longo que passara .
O homem escolhera não se lembrar mais do motivo pelo qual preferia o nada , apenas do que o sustentava enquanto vivia no tudo do tapete de todo mundo . Não importava mais que a única fotografia restante se desfizesse ainda mais , pois tratara de projetá-la em todos os minutos de sua incondicional opcional .
Fizera questão de lembrar de esquecer do que o faria desistir do nada do mesmo modo em que desistiu de tudo por algo que esquecera após viver de tentar esquecer .
A cada dia um acorde substituia o lugar que sua mente reservara para um pedaço da lembrança da fotografia , que também foi obrigada a ser esquecida .Assim como sua antiga vida , que , aos poucos ficava mais distante do que o fazia querer abandonar tudo -ou nada- de novo .
Já não se lembrava mais dos nomes dos dias da semana , nem dos meses . Até que se perdeu no tempo junto ao temporal de ontem .
O que um dia poderia ter sido chamada de fotografia , que nunca mais seria lembrada caso não resolvesse aparecer por conta prória , saíra de dentro de onde vinha o som . Enquanto as ondas sacudiam o barco e as águas invadiam cada espaço seco , sua bagagem e todas as coisas sem vida boiavam , o homem apenas se lamentava por perder o violão - a lembrança restante e concreta .
Agia igualmente a um dia de tempestade comum em uma tempestade incomum . Entre as cordas da lembrança concreta , um pedaço molhado de papel retangular fez-se , também , concreto ao retratar perfeita e unicamente ao homem seus olhos de sonhador . Reconheceu-se neles . Ao lado , estavam os olhos de seu coração , a dona de sua alma , o motivo de todos seus dias alegres .
Lamentou por ter se esquecido de saber nadar até perder os braços -quizá a vida -por se ver novamente dentro dos olhos da mulher .
Lamentou por ter esquecido o Pai Nosso e pediu ao que restava da lembrança do Pai que devolvesse todas as lembranças .
Lamentou por ter se lembrado de ter aprendido a nadar quando o tapete azul inundava violentamente suas vias respiratórias e tomava suas forças .
Com o violão nos braços , foi tomado pelas lembranças e afogou-se nelas .

Nenhum comentário:

Postar um comentário